Hoje tive a permissão de relatar um caso de uma querida jovem, apesar de logicamente não revelar sua identidade.
Mas, a relevância de tais acontecimentos fez-me querer dedilhar a vocês algumas linhas sobre desabafo.
Pouco há a meu respeito em minhas colunas, pois eu, que sou psicólogo, possuo mais a misteriosa tendência a ouvir. E muito ouço.
Não devo, portanto, estar a utilizar o espaço erroneamente e mantenho a discrição ao direcionar os desabafos a outros momentos e pessoas. Mas, talvez, esta época de Final de Ano junto a tantas coisas que passei no decorrer deste processo das Colunas Diárias tenham me deixado mais sensível a compartilhar este pequeno fato. E isto ocupou minha cabeça nos últimos meses:
Fiquei muito intrigado com esta encantadora moça que pouco queria falar de si e mais ela queria saber do tempo, dos jornais, de mim.
Estava claro que se escondia. E que ao tirar a atenção dela mesma não precisa encarar a profundidade de seus problemas. Não foi o primeiro caso deste tipo que vi. Sugeri a ela que aquele era um espaço de reflexão, onde estaria segura a desabafar o que quisesse, mesmo que depois seu desabafo mudasse de idéias.
O que aconteceu foi que, nas sessões seguintes ela veio, e nada falava, apenas chorava. Este era seu desabafo. Fiquei confuso no começo. Tentei argumentar, mas nada obtinha êxito.
O que defini foi: fora daquele consultório, ela não chorava. Em sua vida, uma rotina estressante, não havia espaço para respirar.
Estava a chorar de cansaço e de angústia.
Esta era uma jovem que não conseguia abrir-se para o todo, nem mostrar sua fragilidade. Tal fragilidade não era aceitável para ela.
Entendam que a pressão vivida era intensa. No trabalho, era não somente chefe, mas dona do negócio. Por necessidade, não podia parar.
Era separada de seu marido, que pouco ajudava. Mãe de dois filhos e responsável pela sua tia, que a criou, e agora estava doente.
Ela precisava ser forte, a base onde todos podiam estar a apoiar-se. E ela só apareceu no consultório, pois sua médica disse que os vermelhões no corpo e os lapsos de memória eram psicológicos. Ela foi porque, desta maneira, não conseguiria trabalhar.
Mas, foi então, sozinha naquela sala, em contacto consigo após tanto tempo, que tomou consciência de seu estado. Finalmente, sentia-se em um lugar onde poderia conseguir certo apoio.
Veja bem, ela precisava enxergar um mundo onde nem tudo dependia dela. Uma vida onde o esforço não funcionasse unilateralmente, como era até então.
Uma vez perguntei a ela porque não havia se casado de novo, e ela disse, realmente, que não precisava de mais trabalho. Quão injusto para esta mulher!
Mas, aos poucos, ela parou de chorar. E quando todos os desabafos foram feitos e repetidos, e as aflições compartilhadas, o mesmo comportamento começou a tomar espaço fora do consultório. Pois, teve consciência de coisas que antes sufocava.
Quis que esta história fosse citada, minhas caras, pois muitas vezes na vida nos sentimos a carregar o mundo nas costas.
Constantemente, recebemos tantas responsabilidades que nos impedem sequer de parar para pensar. Quanto mais, desabafar. Confiar a alguém um desabafo e contar com o apoio de um amigo é tão importante quanto ceder o teu. E dividir o fardo faz parte do que nos torna melhores. O que digo é que, é uma necessidade ter alguém que cuide de nós e demonstre carinho e compaixão.
Por essas, hoje não falo apenas por esta paciente. Falo por mim. Falo por toda gente.
Às vezes, é difícil expor tuas vulnerabilidades. Principalmente, quando tu não foste criado para tê-las. Mas, te permitir ser humano - errar, precisar de férias, precisar de tempo para entender a vida, soltar o choro engasgado – é a nossa salvação. Já comece este Novo Ano de outra maneira. Desabafa o que tu carregas no peito, faz do teu jeito, mas larga este peso de ti. E, daí, olha pra frente e recomeça a viver.
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