Beginnig of a new phase of life

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Falsa Revolução Feminina (Victor)

Ao observar o movimento do meu consultório percebi que o número de pacientes mulheres era muito superior ao número de homens. Em sua grande parte, estavam ali por uma mesma causa: as mulheres estão estressadas.

E digo isso porque, naquela sala, não havia casos patológicos ou distúrbios. Eram mulheres exaustas, que estiveram a passar por alguma experiência recente que foi a gota d´água e por essas resolveram vir. Esta gota d´água, na verdade, é um fragmento de água comparado aos motivos reais de sua condição. Vou explicar-me:

O retrato destas mulheres é este: pessoas cansadas, cobradas pelo mundo 24 horas por dia, sobrecarregadas. Como já citei anteriormente em “Sucesso”, o mundo impõe-nos o melhor, constantemente. E as mulheres em suas mil funções adquiridas cobram-se muito mais, claro. São as
mulheres multifuncionais, as mulheres da nova geração.

E a ideia de felicidade está associada a ter o pacote completo. Por essas, nossas fantásticas fêmeas querem tudo, e conseqüentemente, querem ser boas em tudo.

Às vezes, esquecem-se que ser perfeito não é humanamente possível. Na tentativa de acertar, processar, agendar e cumprir verdadeiras missões, tornam-se máquinas, e chegam ao consultório, quando conseguem vir, como zumbis.

E isso é o conceito de sucesso?

Estamos a falar a cá da falsa revolução feminina, onde ao invés de igualdade, as mulheres conquistaram mais trabalho e responsabilidade.

Veja bem, a igualdade ainda não existe. Quando tu tens mulheres esgotadas em actividades que deveriam ser compartilhadas, não há igualdade.

E o que se escuta muito é algo do gênero: “Mas não foi por isso que elas lutaram?”. Lutaram, sim, por um espaço. Por uma forma mais respeitosa, pelo reconhecimento. E não por este acúmulo de cargos, ainda impostos, de certa maneira, em nossa sociedade.

Culturalmente, as mulheres ainda são a responsáveis pela casa. E ainda funcionam como secretárias do marido. Quando se tornam mães, o assunto fica ainda mais complicado e entraremos mais especificamente nisso depois.

Talvez, em alguns aspectos, isso seja exigido delas, porque, de forma ancestral, tais ações denotam certa sensibilidade.

Veja bem, não excluo a presença das mulheres nos afazeres domésticos e imagino que algumas, de facto, gostem de cuidar do lar. Mas, a sobrecarga acontece e a pressão da decisão onde elas são obrigadas a escolher uma coisa ou outra (profissão ou família) acontece, pois elas não têm apoio. Nunca é perguntado ao homem se ele irá abrir mão da profissão pela família, ao contrário, é esperado um aumento de produtividade. Isso porque ele entende que, em casa, possui uma base sustentável.

O que digo é que, na actual situação socioeconômica e cultural, esta base precisa ser sólida nos dois lados.

Devo explicar que, na verdade, a ideia não é fazer com que um dos dois abra mão de sua profissão, estudos, etc… Mas, que haja um ajuste justo que permita um pouco a todos.

Se for ele quem trabalha, a mulher pode ponderar um horário onde ele fique com as crianças enquanto ela faz seus cursos. O oposto também é verdadeiro. E depende da disposição em coreografar esta dança. O que não pode ser, querida leitora, é fingir que é mãe solteira.

Tenho a destacar, porém, um dado que considero muito feliz. A postura dos homens está a mudar. A nova geração masculina, vinda de uma educação de mulheres mais liberais e vendo suas mães lutadoras a trabalhar, tem uma visão diferente sobre responsabilidades do lar.

Vejo que, estão aprendendo a arrumar-se. Mesmo porque, alguns estão a passar pela experiência de morar, durante um tempo, sozinhos. E, então, eles dão valor às tarefas domésticas. Eles ganham uma consciência sobre, por exemplo, como é chato lavar louça.

Sabem fazer compras, sabem passar uma camisa… Claro, quando se casam, eles não são meninos perdidos e dependentes. Enquanto aquele que sai mal acostumado da casa de sua mãe, faz imediatamente a transferência de papéis para a esposa.

Por essas, aconselho minhas estimadas pacientes a casarem com homens que já moraram sós, e aos pacientes a largarem a saia de suas mães. Pois as mulheres de hoje não suportam ser babás. Não querem um marido como filho e sim, um homem que as apóia. E estão deliciosamente certas!

Ainda assim, com esta consciência que vem a crescer, talvez as mulheres estejam a comprometer sua sanidade no desequilíbrio destas responsabilidades.

Ao saberem disso, não deveria ser clara a solução? A divisão igualitária de tarefas dentro de uma casa, a possibilitar a todos uma administração de seu tempo e afazeres.

Mas, não é bem assim. Isso porque ainda existem barreiras bastante complexas nesta real evolução. Veja bem:

Em um cenário tradicional, existem ainda muitos homens que, apoiados em conceitos machistas ou simplesmente apoiados confortavelmente, se recusam a executar papéis que consideram femininos.

E há mulheres que definem que nessa divisão de funções irão perder o espaço pelo qual batalharam, e que é de seu direito e dever, e então, não delegam. A divisão, que traria a ideal igualdade, acaba por não acontecer.

Ainda, a tão polêmica questão dos filhos, onde, logicamente, as mães têm a incumbência de amamentá-los, após os primeiros anos da maternidade, não se altera. Elas continuam a responder pelos filhos e por tudo o que os envolve, pois assim têm feito desde o momento em que eles nasceram. Mas, agora que as crianças estão a tornarem-se, não independentes, mas menos “exclusivas” aos cuidados das mães, é a hora de dividir mais responsabilidades. Precisamos quebrar este tabu, pois a participação dos pais é tão importante quanto a das mães. Entenda que, os dois são a representação do homem e da mulher, e do que essas crianças aprenderão por relação entre os dois. Portanto, mães, deleguem aos pais também!

As mulheres precisam aprender a delegar! Precisam ver que, não é possível estar no controlo de tudo e, claro, relaxar. Deixar toda a impetuosidade e espontaneidade, tão sensuais da mulher, fluírem novamente.

Aproveito o espaço para afirmar às nossas mulheres atarefadas que, perfeccionismo tem hora e tu só consegues ajuda quando abres espaço para alguém ajudar. Entendas que, não adianta culpar o outro, não!

Nós, homens, sabemos que tu és maravilhosa. E achas que apenas tu és hábil a arrumar a cama perfeitamente. Também sabemos que tua mãe sempre te disse algo como: “Homem é assim mesmo”, cada vez que falhávamos na organização ou arrumação de casa, a fortalecer a máxima de que somos mentalmente incapacitados de realizar tais tarefas.

Mas, a verdade é que a prática leva a perfeição, e se tu desejas uma ajuda para arrumar a cama, deixas seu marido arrumá-la todo dia. Fiques tranqüila. Ele vai acertar.

Menos uma preocupação para tua lista.

Afinal, do que adianta tanto esforço, sem saborear nenhuma vitória? É necessário tempo em teu dia-a-dia para apreciá-la. Nos permitir é algo maravilhoso. É possível e te trará certa paz. Permitas a ti não seres “a melhor” e sim, feliz.

Percebas que, esta definição prevalecente em nossa cultura, em que mulheres são exemplos e devem ser perfeitas e multifuncionais para mostrarem-se modernas, é injusta. E não deve ser aceita. Cabes a ti não vesti-la.

Também, é importante lembrar, que não é admissível uma regressão de valores, abrindo mão das conquistas reais posteriores a revolução feminina, como a abertura nos mercados de trabalho.

Mesmo assim, também neste aspecto, as mulheres ainda são reféns. De certa forma, são consumidoras e mão-de-obra mais barata, bem-vindas aos mercados até a página cinco. E continuam a cumprir, cordialmente, seus papéis sociais.

Por essas que, quando estou a diagnosticar uma paciente, que apresenta sintomas sérios, pois já não come direito, há dificuldades em dormir e sua memória está falha, me pergunto se ela sabe o que quer da sociedade e se sabe o que a sociedade está a fazer com ela. Às vezes, acho que estas mulheres tão encantadoras, inteligentes e cultas, que dominam tão bem a si e as questões psicológicas e mais profundas, não fazem ideia do poder que têm neste mundo. E o quanto ainda devem libertar-se e lutar pela igualdade.
http://www.colunasdiarias.com


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